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Assunto: Comportamento

Comportamento das crianças: os medos são fantasia ou realidade?

01/08/2001 - Texto por Dra. Monica Mlynarz

Certamente, todas as pessoas já experimentaram sentimentos de medo e ansiedade, de uma ou de outra forma, com maior ou menor intensidade. Desde os primeiros anos de vida, as crianças em geral são mais ou menos perturbadas pelo medo e algumas receiam tanto que sua liberdade de ação pode ficar comprometida. Também os adultos têm medo e muitos lutam com apreensões que têm raízes nos seus temores de infância.

Acredito que não seja fácil reconhecer os próprios temores diante das circunstâncias que a vida nos prepara, mas talvez seja esse o caminho para enfrentá-los e tentar resolvê-los. É importante notar que a palavra "medo" na linguagem do dia a dia pode significar uma variedade de preocupações que vão desde um temor extremo a perigos evidentes, como um cão ameaçador, até uma inquietação como a preocupação de falar em público ou ser repreendido por um professor.

Definição e evolução do medo

O medo é uma das principais forças motivadoras da conduta humana. É um fator biológico de defesa e proteção relacionado ao instinto de conservação. Portanto, não é patológico e, sim, extremamente necessário para proteger a criança dos perigos, devendo ser corretamente treinado: é o medo biológico. Para que e por que ensinamos nossos filhos pequenos que é perigoso debruçar-se em janelas ou atravessar a rua sozinhos? Temos a certeza de que a não percepção do perigo poderá ter resultados desastrosos para a saúde física e emocional deles. Dependendo das experiências vividas, do ambiente familiar e de outras variáveis, a criança poderá apresentar evolução patológica do medo, caracterizada por perturbações do comportamento, desde manifestações de timidez e vergonha até crises de ansiedade ou fobias.

O papel da maturação

A criança, quando muito pequena, não é afetada por algumas das situações que a assustarão mais tarde, quando já tiver amadurecidas suas capacidades de percepção e discriminação. Exemplo disso são trabalhos sobre a resposta de crianças de diferentes idades ao confinamento num pequeno cercado, por exemplo. Em dez semanas a criança pode mostrar-se completamente tolerante; com vinte semanas pode apresentar um leve receio e, ao final de trinta semanas, sua resposta à mesma situação pode ser fortemente expressa pelo choro, reação que podemos descrever como "medo ou temor". A mudança da sensibilidade ao medo está associada a vários aspectos do desenvolvimento. 

Do nascimento aos 18 meses os bebês têm medo de objetos reais, ruídos inesperados, situações ou pessoas estranhas, quedas ou perigos de quedas, luzes fortes. Dos 18 aos 36 meses poderão demonstrar medo da escuridão e de atividades como nadar ou tomar banho. Dos três aos cinco anos as crianças podem se tornar vítimas de sua própria imaginação. Elas já aprenderam que algumas coisas poderão realmente machucá-las, mas ainda não têm certeza sobre quais são. Consequentemente, assustam-se com perigos sobrenaturais e imaginários, monstros e fantasmas. Nessa idade aumenta muito o medo da escuridão.

Comportamento das crianças: os medos

Os medos na infância nem sempre são previsíveis se levarmos em conta as diferenças individuais quanto à suscetibilidade. O mesmo estímulo pode ser ameaçador para uma criança e deixar outra indiferente. Além disso, a criança pode ficar perturbada por certo estímulo em determinada situação, não lhe dando qualquer atenção em outra circunstância. Uma criança de três anos, por exemplo, pode ficar amedrontada ao ter de entrar sozinha numa classe cheia de crianças que não conhece. 

No entanto, poderá sentir-se à vontade se estiver acompanhada de sua mãe. Os temores são influenciados também pela aprendizagem. Em virtude de uma experiência penosa, de ter sido assustada ou dominada, a criança poderá "aprender" a temer algo que antes não a incomodava. Essa aprendizagem pode ser direta, específica e restrita: uma criança é mordida por um cachorro e passa a temer aquele cachorro. Os efeitos podem ser gerais, quando então ela passa a ter medo de todos os cachorros ou qualquer animal de quatro patas. Com relação ao ambiente familiar, há uma tendência da criança adotar os medos de seus pais. 

Como poderá uma mãe que tem medo de cachorros e os evita não torná-los ameaçadores para seu filho? Queridos pais, certamente é fácil dar conselhos. Sei que as coisas não são tão simples quanto possam parecer, pois a cada momento em que nosso filho tem medo somos levados a reconhecer as nossas próprias ansiedades e medos, mas devemos tentar sempre e esse é o maior desafio. Convido-os a enfrentá-los!

Dicas e estratégias para lidar com os medos infantis 

A maioria dos pais entende que os medos são normais no desenvolvimento de seus filhos e que deveriam ser protetores. Ao lidar com os medos, o objetivo não é apenas que desapareçam, mas também utilizá-los para ajudar a criança a lidar com situações estressantes e a determinar quando realmente ter medo. Essa tática desenvolve gradativamente a confiança da criança em sua capacidade de enfrentar situações temidas. Não podemos esquecer que medos são ferramentas fundamentais para evitar o perigo. 

Não fale demais

Se no passado era comum ignorar os medos da criança, hoje uma falha comum entre os pais é dar demasiada atenção a eles. Como regra geral, quanto menor for a criança menos os pais devem falar. Deverão lidar, neste caso, com sua própria ansiedade sem dar muitas explicações. 

Não diga mentiras

Se a criança vai ao médico, não diga que ela vai à casa da vovó. Porém, prepará-la cinco dias antes aumentará sua ansiedade. Basta algumas horas. Praticar sessões com bonecos ou outros brinquedos poderá ajudar a enfrentar a situação real. 

Imaginação positiva

Distraia a atenção da criança com algo agradável. Sugerir que a criança tenha pensamentos positivos e prazerosos ao invés de pensamentos ruins e assustadores. Por exemplo, estimular sua imaginação com a ideia de soprar um balão pode ajudá-la a enfrentar o medo de tomar injeção.
 
Determine a dimensão do medo

É importante ensinar a criança a avaliar a realidade. Dê a seu filho uma mensagem curta e breve, com segurança e autoridade. As discussões ou questões poderão vir depois: "Alguns cachorros são bravos, mas este não irá machucá-lo." 

Fortaleça seu filho

Situações ameaçadoras parecem menos assustadoras quando a criança ganha algum controle sobre ela. Uma das estratégias é dar a ela um objeto ou brinquedo preferido para dar sorte e ajudá-la a enfrentar o medo. Bem sabemos de nossas superstições. 

Assegurar à criança que está tudo bem

A criança está muito atenta às ansiedades de seus pais. Expressões corporais e faciais e palavras irão confortá-la e assegurar que tudo está sob controle.

*Dra. Monica Mlynarz
Terapeuta Individual e Familiar

Publicação:
Agosto 2001 - Edição: 10

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