A importância da amamentação


 

Desde agosto de 1992, comemora-se a cada ano a Semana Mundial da Amamentação, quando se reiteram e se reafirmam as decisões tomadas na "Declaração de Innocentti", compromisso assinado em 199O por 4O países, inclusive o Brasil, visando promover, proteger e apoiar o aleitamento materno. A UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) têm por objetivo mobilizar os estabelecimentos de saúde para que adotem um conjunto de medidas favoráveis ao aleitamento materno, tornando possível para toda a população, a fonte de vida, o Amamentar!

Por essa declaração os países signatários se comprometeram a promover o aleitamento materno exclusivo nos primeiros 4 a 6 meses de vida e a continuidade da Amamentação até o segundo ano de vida. A cada ano um novo tema relativo à Amamentação é proposto para ser estudado, discutido e divulgado.

Em 1997, o tema escolhido foi: "Amamentar é um ato ecológico", pois o leite materno é um alimento produzido e entregue ao consumidor sem poluir, sem provocar desperdícios e sem necessidade de transportes e embalagens. Para um maior entendimento e melhor compreensão sobre o tema amamentação seria importante tornar mais claro esses processos que, se outras condições permitirem, podem estar presentes e desencadear alterações do binômio forma função desde que a criança nasce.

Estivemos em Bangkok, por ocasião da WABA GLOBAL FÓRUM-96, ocasião em que pudemos apresentar nosso trabalho de pesquisa dentro da área da amamentação. Aprendemos muito permutando nossas experiências com pessoas de diferentes setores da área da saúde do mundo todo.

Foi uma vivência muito rica e proveitosa, que nos mostrou como temos ainda um longo caminho a percorrer, uma vez que não foi pesquisada a importância da amamentação no crescimento e desenvolvimento da face, fora do nosso trabalho. Foi um alerta brasileiro para o mundo, que foi captado com muito carinho e interesse por todas as comunidades que se dedicam ao estudo, apoio e divulgação da amamentação.

É estranho que algo tão diretamente ligado à boca não conte com maior número de produções científicas de cirurgiões, dentistas, fonoaudiólogas, fisiologistas e otorrinolaringologistas. Pois é assim, sempre se enfoca a importância da amamentação como nutrição para o bebê, pesquisas são feitas para mostrar quanto o leite materno pode fazer pelo bebê, além de alimentá-lo da melhor forma possível, a imunidade que a mãe oferece e garante ao bebê, por meio da transferência materno-fetal de IgA e outros elementos que inibem a aderência bacteriana, diminuindo a incidência de cólicas, alergias, diarreias e eczemas através da Amamentação.

Uma ênfase especial sempre é dada aos aspectos psíquicos e emocionais, da relação mãe e filho, que acontece durante o aleitamento materno, quando se estabelece a cumplicidade e o vínculo afetivo entre mãe e filho.

Mas, é pouco valorizado o trabalho mecânico realizado na ordenha. A amamentação sempre envolve mãe e bebê, mas é necessário que o pai seja igualmente orientado, motivado e estimulado, uma vez que a amamentação deve ser um processo que envolva toda a família, se possível a comunidade, apoiando, incentivando e ajudando a mãe que amamenta.

Os diferentes motivos apresentados pelas mães para o desmame precoce, percebidos durante as entrevistas do meu projeto de pesquisa sobre as alterações das estruturas orais por falta de amamentação, fizeram com que eu percebesse que alguma coisa errada estava acontecendo com a mulher que amamenta.

Estaria a causa entre nós (profissionais da saúde), entre os responsáveis pelas diferentes áreas de apoio à mulher e à amamentação, (incluindo pré-parto, parto e pós-parto), ou com a mãe despreparada, desmotivada, mal informada, que diante da primeira dificuldade desiste da amamentação? Concluí que a menor parcela de responsabilidade no desmame precoce está com as mães.

Se a mãe é informada da importância de seu leite como alimento, com seus componentes maravilhosamente dosados, que variam de acordo com a necessidade do bebê, se conhece a cumplicidade afetiva que se estabelece, e a relação de amor, confiabilidade e segurança que vivenciarão por toda a vida, certamente considerará a imunidade, que possibilitará a seu filho viver com saúde, com menores chances de contrair infecções e doenças.

O leite materno funciona como uma vacina contra quase todas as infecções que a mãe teve no passado, mesmo antes da gravidez, também protegendo o bebê contra as infecções mais comuns nos primeiros dias após o nascimento. Diminui os riscos de desenvolvimento dos processos alérgicos, devidos à introdução precoce das proteínas pesadas do leite de vaca.

Na amamentação, a criança aprende a posicionar corretamente a língua, ganhando tônus adequado que viabilizará as corretas funções orais, possibilitando uma boa oclusão por afastar hábitos como: sucção de polegar e chupeta, uma vez que a criança satisfaz, no peito da mãe, sua necessidade neural de sucção. É, sem qualquer dúvida, muito maior o tempo de sucção no peito do que na mamadeira. Em ambos os casos não passará fome, porém, na mamadeira fica sempre uma falta da satisfação neural, impulso que a acompanha desde o útero materno que fará sugar o polegar, o lábio inferior ou a própria língua.

Amamentando, a mãe sente a imensa realização pessoal que significa a experiência de amamentar. Pensa no seu insubstituível papel de mantenedora de uma vida e no impulso criador, na renovação da coragem, na gratidão pelo milagre da vida. Sabe que amamentar exclusivamente no peito com livre demanda, inclusive à noite, pode ser um método natural de limitar o número de filhos.

No pré-natal, deve ter sido esclarecida que durante a amamentação ela produz um hormônio muito importante que contrai os tecidos, diminuindo os riscos de hemorragia e tornando mais fácil ao seu corpo readquirir a forma antiga. Os mamilos devem merecer atenção especial para que estejam preparados e prontos na hora da amamentação, com mamilos resistentes e profusos, bem como a mãe reconhecendo a correta "pega".

Deve saber que, mesmo no peito da mãe, a criança pode fazer uma pega errada, pobre, ineficiente, como na mamadeira, que acarretará dores e traumas mamilares e é um caminho curto para o desmame.

Os motivos para não amamentar geralmente são: a volta ao trabalho, a solidão para enfrentar dores e dificuldades, os temores, as crendices, as inseguranças, a preocupação estética, o desejo de voltar a tomar pílula etc. Existe também o medo que seu leite seja fraco e seu filho passe fome, a falta de informações e de estímulos para enfrentar as dificuldades.

Desconhece a causa que leva a traumatismos, fissuras e dores nos mamilos. A interferência do marido ou companheiro, que não esconde suas atenções com as alterações do físico da companheira, as críticas infelizes que recebe dos seus maiores amores, que não apoiam, não estimulam, apenas ampliam suas ansiedades, inseguranças e temores.

Segundo a OMS/UNICEF: "Os motivos alegados pelas mães para não amamentarem ou para interromperem a amamentação precocemente indicam que existe uma falta generalizada de conhecimento do processo fisiológico da lactação e do fato de que a maioria das mães podem amamentar e produzir leite suficiente para o seu filho. A amamentação não é totalmente instintiva no ser humano, tem que ser aprendida em grande parte e, para ser prolongada com êxito, a maioria das mães que aleitam precisam também de reforço e apoio constante".

Entretanto, não basta orientar e estimular o aleitamento, especialmente em casos de primeiro parto, pré-natal. Ainda que motivada a amamentar, a mãe sem conhecimentos da dinâmica de todo processo da amamentação, sem saber quais os cuidados que deve dispensar à mama após o parto e por ocasião da apojadura, deixa a vitória às pressões diante de informações erradas, crendices, tabus e falta de apoio da família e da comunidade, além de receber orientações diferentes e até contraditórias de cada profissional de saúde que lhe presta atendimento, e desmama seu filho.

Esse quadro é agravado pelo fato de que várias equipes atendem as mães desde o pré-natal até a alta da unidade de internação, não apresentando continuidade e coerência nas informações passadas. Ainda que aconteçam divergências entre os profissionais que atendem mãe e recém-nascido, deve haver a preocupação de, através de reuniões, grupos de estudo, análise de casos clínicos, ser possível uma visão comum de direção única, para que as mães se sintam seguras, para que enfrentem possíveis dificuldades com coragem, confiando na orientação e ajuda recebida da equipe.

Os cuidados recebidos durante o pouco tempo que as mães permanecem no hospital após o parto não são suficientes para avaliar toda a insegurança, os temores e a falta de informação que as acompanham. Preocupações com temas de menor valia são muito enfocados - tempo usado para as mamadas, espaço entre as mamadas, a composição química do leite materno, a comparação entre os diferentes leites e outros itens de importância superficial - enquanto as informações básicas são abandonadas ou levemente citadas.

Orientações diferentes, de sentido duplo, ultrapassadas e de pouco interesse para a mãe acabam por suplantar as informações mais importantes para o sucesso da amamentação. Não podemos esquecer que ela não está preparada para questionar as informações passadas. Muitas vezes elas não conseguem verbalizar dúvida alguma.

É interessante para o sucesso da amamentação que a mãe receba, na sua linguagem, informações sobre a importância da amamentação com os aspectos biológicos, imunológicos e mecânicos da ordenha, e capte os meios para que ela amamente, cuide das mamas antes e depois do parto, cuide de seu bebê, consciente das decisões que cabe só a ela tomar.

Mesmo entre as mulheres com acesso à informação, é comum o desmame precoce, talvez porque costuma-se dizer que a amamentação é instintiva, que nascemos sabendo amamentar e aquela não conseguiu superar as dificuldades, considera que o insucesso da amamentação foi devido à uma incapacidade sua, pessoal e particular. E não é verdade!

Durante anos, por vários motivos já estudados e expostos em diferentes trabalhos e teses, o desmame precoce levou as mulheres a abandonarem a amamentação. Desse fato resultou um grande aumento nas taxas da morbidade e mortalidade entre crianças em todo o mundo. Assim, governos e organizações não governamentais foram mobilizados para reverter aquela tendência considerada biológica e medicamente regressiva.

Antigamente, todo manejo da amamentação era passado de mãe para filho, mas hoje, por muitos motivos, essa cadeia de informação foi interrompida. O modo de vida urbano, a diferente hierarquização de importância entre o ter e o ser, quebrou esse circuito e é urgente que resgatemos essa habilidade. Por isso, tal prática deve ser incentivada e apoiada, com paciência e informação.

Esses motivos apresentados são justificativas para estimular o Cirurgião Dentista e apoiar, defender e divulgar a amamentação, estudando, fazendo estágios, participando de grupos que divulgam e incentivam a amamentação.

A classe odontológica depara constantemente com alterações oclusas, alterações de estrutura e função dos órgãos do sistema estomatognático por falta de amamentação. Ortodontistas e ortopedistas funcionais, no dia a dia da clínica, testemunham a importância da forma função espaço funcional, de cujo equilíbrio depende a estabilidade de nossas correções.

Atualmente, o mundo está atento para outros interesses que a amamentação pode satisfazer: a correta vivência das funções orais, com o correto desenvolvimento das estruturas nelas envolvidas, para que adequadas funções se estabeleçam.

Estamos assumindo nosso papel dentro da área de saúde, com prevenção e correção. Tem-se pesquisado e estudado a relação entre a amamentação e seus efeitos no sistema estomatognático. Precisamos estar atentos, pois além dos muitos benefícios para a criança, a comprovação dessa relação teria grande influência, já que se trata da prevenção de uma série de patologias e alterações que são significativas nos cuidados de saúde pública e que passam por nossas mãos e cuidados.

Ao mesmo tempo, não se pode afastar a enorme necessidade de pesquisarmos a relação entre as alterações do sistema estomatognático e a alimentação artificial e sua relação com hábitos viciosos como a sucção não-alimentar.

Desde ENLOW, reconhece-se que "estamos numa época de grande renovação a respeito da compreensão conceitual dos processos biológicos que direcionam a morfogênese das estruturas faciais durante seu crescimento e desenvolvimento".

Sempre que temos um enfoque terapêutico, não importa qual seja a especialidade, que envolve a face humana, é fundamental que se objetive a normalização dessa área. Desde o nascimento o bebê está apto a efetuar os movimentos fisiológicos e funcionais de todas as funções vitais: sucção, deglutição e respiração; sendo que a sucção e a deglutição, ele inicia ainda na vida intrauterina.

Vem daí a justificativa primeira das nossas pesquisas sobre aleitamento materno. É a relação entre hereditariedade e meio ambiente que produz toda a possibilidade de desenvolvimento biológico que um indivíduo pode atingir. Assim, as funções podem alterar o potencial que a hereditariedade dotou. As leis fisiológicas, que regem as funções, indicam as pesquisas, que 6O% do crescimento e desenvolvimento depende delas e o projeto genético entra com 4O%.

É preciso invadir a anatomia e a fisiologia, desde os processos embriológicos, para se ter o entendimento necessário, uma visão amplificada de como acontece e atuam as funções orais. Então poderemos entender como a amamentação é a prevenção das alterações estruturais e funcionais da boca. As funções orais são solicitações neurais.

Assim, o bebê nasce e coloca em marcha os mecanismos que garantem que ele sobreviva. Assim, ele suga, deglute, respira...neurologicamente. Ele não "sabe" respirar pela boca. É devido a isso a grande preocupação dos obstetras em desobstruir o trajeto respiratório, imediatamente após o parto.

Todo ele é sugar. Desde os primeiros momentos ele suga as mãos, satisfazendo o único amadurecimento que tem. Quer respirar para viver e se alimentar, sugando, para continuar vivo. Esta observação fez com que a Organização Mundial de Saúde, UNICEF, WABA, IBFAN e todas as frentes de apoio, proteção e defesa da amamentação, criassem o Hospital Amigo da Criança. Nesses hospitais, a criança, logo que nasce, é colocada no peito da mãe.

Sabemos que a produção do leite materno depende da sucção do mamilo (estímulo neural para a hipófise produzir a prolactina - hormônio responsável pela produção do leite), então por que não colocar, o mais precocemente possível, o bebê no peito da mãe? Assim, o bebê estabelece um padrão de respiração nasal e aprende a posicionar a língua.

O trabalho da língua, durante a amamentação é tão intenso que ela adquire tonicidade, postura e desenvolvimento. Em seguida ao parto, no Hospital Amigo da Criança, o bebê tem Alojamento Conjunto, isto é, fica com a mãe no mesmo quarto e a amamentação é com Livre Demanda, ou seja, sem hora marcada. Isto significa que nos Hospitais Amigos da Criança não existem berçários. Eles foram reduzidos a alguns poucos leitos com indicação patológica.

Dra. Gabriela Dorothy de Carvalho