Denise Fraga - Aprendiz de mãe

Mãe de Nino e Pedro a atriz Denise Fraga afirma estar aprendendo muito com eles. Nesta entrevista exclusiva, Denise Fraga revela com franqueza as emoções e descobertas da maternidade e como concilia sua vida profissional agitada com a criação dos meninos.

Alô Bebê - Que lembranças você tem das suas gestações (problemas e alegrias, manias, estranhos desejos...)?

Denise Fraga - As duas gravide... Gravidezes? (risos). A gente nunca sabe isso, né? Você sabe?

Alô Bebê - Sinceramente, não (risos).

Denise Fraga - Então, as duas vezes (risos)... As duas gestações...Isso (risos). As duas foram super tranquilas, apesar de que enjoei muito na gravidez do Nino. Demais mesmo, de ter que parar o carro toda hora, sabe? Quando viajava no fim de semana, era um transtorno, porque eu parava três, quatro vezes durante a viagem, passando mal.

Mas tive uma sensação de alegria e plenitude durante as gestações que não é uma coisa teórica. Não é dessas coisas que a gente fala "ah, na gravidez a mulher fica plena, fica linda", foi uma coisa que eu senti realmente, não foi uma coisa dessas que falam, sabe? Senti uma vivacidade, uma coisa muito bacana durante as gestações, ambas foram muito legais.

Alô Bebê - O que a maternidade acrescentou à sua vida? Como você era antes e como é agora? O que mudou?

Denise Fraga - Tudo, né? (risos). Acho que você recebe na veia uma dose de generosidade muito grande, quer dizer, você, antes, pode ser uma pessoa muito auto referenciada, mais preocupada com o que vai ser legal para você, mas depois que vem o filho, o que interessa não é só ele, mas a humanidade. Senti que comecei a ter uma preocupação maior com o mundo, mesmo.

Isso é uma coisa muito real. Na época eu tinha no meu sítio uma cadela parindo, sabe uma vaca prenha. E aí eu pensei "Gente, eu faço parte desse negócio todo!". Eu não vim ao mundo para saber que filme quero ver no fim de semana - eu vim também - mas o mais importante é o "crescei e multiplicai-vos", você entender que faz parte da humanidade, né? Como se você estivesse num rio, no qual você tem que entrar, como todo mundo...

Alô Bebê - O rio que é um símbolo do tempo, pois embora continue sendo a mesma coisa, está sempre se transformando...

Denise Fraga - Exatamente, ninguém entra no mesmo rio duas vezes, né?

Alô Bebê - Ser mãe hoje é mais fácil? O que dizem as mães da sua família a esse respeito, e que tipo de experiências vocês têm compartilhado?

Denise Fraga - Mais fácil, sem dúvida. Mas acho que tem dois lados. Acho que a gente tenta estabelecer com os nossos filhos uma relação mais honesta. A gente tenta explicar, acho que por isso a gente até sofre mais, porque temos uma preocupação psicológica que nossas mães e avós talvez não tivessem. Hoje em dia você não vira para um menino e fala "não faz isso porque é feio"; você vai lá e explica por que ele não pode fazer aquilo. Ou "não, mamãe não quer que você faça isso"; isso não existe, a gente diz "não faz isso, porque você pode se machucar".

Então acho que, sem dúvida nenhuma, estamos melhorando o planeta (risos). As crianças estão mais perspicazes. As mentes estão mais brilhantes. Criança não é mais uma coisa assim "fica aí, que menino bonitinho, ele é o bonzinho da mamãe", essas coisas que a gente até escutou das nossas avós e das nossas mães. Essa palavra bonzinho, a acho muito engraçada, porque o que é um "menino bonzinho"? Bonzinho para a gente?

Alô Bebê - O que faz tudo que a gente quer e não o que ele quer...

Denise Fraga - Isso. Então, uma coisa que eu sempre penso pros meus filhos e sempre espero poder dizer pra eles é "sejam curiosos, queiram saber, queiram descobrir". Então fico sempre pensando que o que tenho a fazer é ajudar e, até, levantar as dúvidas, e não tentar resolvê-las todas, porque eu não sei.

Alô Bebê - Procurar aprender com eles também...

Denise Fraga - Exatamente. Você perguntou o que mudou, né? Isso aí mudou muito, parece que acende uma estrela, e você está na escola de novo. E você poder pegar carona no aprendizado dele, porque através dele você vai se forçar a ter outra visão do mundo. Outro dia levei o Nino ao cinema pela primeira vez. Tive uma sensação tão boa, do tipo "Meu Deus, que privilégio a gente tem, de poder ir ao cinema, de poder se emocionar através da emoção de outras pessoas". Você acaba pegando uma carona na pureza dele, nos olhos do seu filho pequeno.

Foi uma experiência emocionante. Na vida prática, claro, muda tudo, as pessoas falam "ah, sua vida vai mudar, nunca mais pense em dormir, seu sono nunca mais será o mesmo"; é verdade (risos). O que mais se altera em sua vida antes e depois de ser mãe é a quantidade de horas dormidas (risos). Isso pra mim mudou muito, eu sou uma pessoa que, se pudesse, dormiria dez horas por dia porque tenho muito sono. Se você me deixa dormir só seis horas você terá uma pessoa pela metade durante o dia. Tenho necessidade de sono, e isso realmente mudou. Depois do Nino, quando o Nino nasceu, acho que tive um pouquinho de depressão pós-parto, mas eu falava que metade dessa depressão era sono. Mas é uma coisa tão bacana que lhe acontece, você se sente pertencendo à humanidade, isso supera tudo.

Alô Bebê - Você se lembra de alguma história engraçada envolvendo vocês e as crianças?

Denise Fraga - Vou contar um sonho que tive, que foi muito engraçado. Antes do Nino nascer eu sonhei que estava super barriguda; aí o Luís (Luís Villaça, diretor, marido de Denise) chegou perto da minha barriga e eu falei pra ele assim "Vamos ver? Acho que chegou a hora...". Aí abri a minha barriga como se tivesse um zíper de mochila (risos), tinha um zíper na minha barriga, daqueles que abrem de ponta a ponta, abri tudo, tirei aquela parte, e lá estava o Nino, que era a cara do Luís pequenininho, era um Luisinho nenê, meio careca que nem ele (risos), e ele vinha com uma espécie de plástico na cabeça segurando o cabelo, que nem aquelas bonecas antigas (risos); ele vinha com aquele negócio e, embrulhado em cima da cabeça, uma panela de pressão (risos). E eu falava pro Luís "Olha o que vem de brinde!" (risos). Olha que sonho mais absurdo! (risos)

Alô Bebê - Qual é a reação do Nino quando a vê na TV?

Denise Fraga - Outro dia aconteceu uma coisa muito bonitinha. Fui dar uma entrevista na televisão, na Globo News, e o Nino estava em casa e assistiu com a babá. Ela me falou que ele ficava dizendo "mamãe, mamãe, mamãe..." e eu não respondia (risos). Ele queria ficar falando comigo lá dentro...

Alô Bebê - Você se preocupa com isso?

Denise Fraga - Não, acho que hoje isso é tão facilmente explicável, porque a gente tem em casa tantas coisas relacionadas a imagem, e a gente grava muito ele aqui com uma câmera dessas; então, aparecer na televisão para ele é uma coisa completamente possível, ele vai associar rapidamente.

Alô Bebê - Que tipo de informação você procurava quando engravidou?

Denise Fraga - Quando o Nino nasceu comecei a ler alguns livros de educação, ficava muito preocupada por não saber nada disso, queria fazer um curso de psicologia... Mas hoje eu vejo que ser mãe é muito intuição, acho que a base de tudo é a honestidade. Se você tiver um compromisso com a honestidade, em ter uma relação honesta com seu filho, você já tem meio caminho andado. Li algumas coisas, acho legal, mas acho que não tem método. Bem que a gente queria que tivesse de vez em quando, porque eles nos colocam em xeque o tempo inteiro. Mas não tem, e graças a Deus que não tem, né? Porque, graças a isso, podemos ir a outros lugares...

Alô Bebê - O que você acha daquela frase famosa "Ser mãe é padecer no paraíso"?

Denise Fraga - Eu entendo um pouco agora (risos). Antes não entendia, mas agora entendo mais. É a mesma coisa daquela outra: "Filhos, melhor não tê-los, mas se não tê-los, como saber?" Porque é exatamente isso, tem hora que você fala: "Meu Deus, o que aconteceu com a minha vida que eu não tenho mais um minuto de paz?", "O que eu faço?" Mas acontece que é tão bom. Isso compensa tudo. Sempre que vejo alguém falar "Ah, eu não quero ter filho, porque acaba com a vida da gente", é difícil você fazer essa pessoa ver alguma coisa que ela desconhece, da qual ela não tem experiência. Mas eu sempre falo para elas que é muita encrenca, sim, mas é muito mais felicidade do que encrenca. É a mesma frase que eu falei pro Luís quando a gente resolveu ter um cachorro (risos). Ele falou "Vamos ter um cachorro?", e eu pensava "Ah, meu Deus, mas é uma encrenca!", mas acaba sendo uma delícia de encrenca. Sem encrenca a vida não tem muito sentido, e você vai percebendo isso com um filho, que é uma coisa tão sensacional...

Alô Bebê - Que tipo de mãe você é?

Denise Fraga - Uma coisa que notei e fiquei besta comigo é que eu achava que seria uma mãe mais desencanada, sabe, na boa, deixar com qualquer um. Eu achei que seria assim...

Alô Bebê - Mas...?

Denise Fraga - Eu absolutamente não sou (risos). Sofro com isso porque o tempo inteiro estou preocupada. Uma coisa que realmente mudou na minha vida é que eu era uma pessoa que não achava que a criança ia cair, que algo ruim aconteceria. Mas quando você é mãe isso muda, hoje eu não posso escutar um barulho mais forte em casa que eu já fico esperando o choro depois. Isso realmente muda, você fica uma pessoa mais assustada, mais preocupada, porque criança cai, criança é um risco, um perigo constante. O único aliado que você tem é o anjo da guarda (risos).

Se você tem ele lá de sentido, tem que pensar nele todos os dias. Sempre pensei numa coisa muito maluca, sabe? Acho que tem muito pouco acidente para o número de carros que ficam correndo numa mesma via, quer dizer, em velocidades diferentes, com pessoas diferentes no volante, sempre achei "Nossa, como é que acontecem tão poucos acidentes?" Com criança penso a mesma coisa. Quando ela aprende a andar, se torna o tempo inteiro um risco para cair, quer dizer, você fica esperando a queda (risos), e eu acho ainda que o anjo da guarda segura muito (risos)...

Alô Bebê - Que tipo de pai é o Luís?

Denise Fraga - Ele é muito dedicado e super preocupado também. Às vezes, eu me acho menos preocupada que ele. Mas é o tal negócio, a gente se surpreende com o que aconteceu com a gente. Eu não esperava que fosse me preocupar tanto, ele também não pensava que seria assim. Mas isso é ser pai, não tem escapatória. Nasceu o bebê, não tem mais jeito. Ele participa muito, ele é a produção do cuidado, quando você vai ver ele já pensou na frente, já fechou a escada onde a criança poderia rolar, está o tempo inteiro atento. Eu digo que ele é o Rei Leão (risos). O tempo inteiro ele está de prontidão.

Alô Bebê - Que tipo de criança você foi? Você se vê neles?

Denise Fraga - Não é que eu me vejo neles, mas acontece uma coisa super bacana. Tenho várias memórias infantis nas quais nunca mais tinha pensado...

Alô Bebê - Coisas que você acaba resgatando através deles...

Denise Fraga - Exatamente. É engraçado, acontece alguma coisa com o Nino e eu me lembro de mim, acontece dele chorar, ou cair e vir me abraçar, e eu fico me lembrando como era comigo, porque eu fazia muito isso com a minha mãe, de vir e enfiar a cara assim, sabe, quando você está numa situação de aperto; me dá essa sensação de lembrança...

Alô Bebê - Você era uma criança meiga?

Denise Fraga - Eu era super meiguinha, eu até tinha raiva disso, porque as pessoas falavam toda hora "Ah, como é meiguinha", "Nossa, como ela é meiga!", e eu nem sabia direito o que significava meiga (risos). É ruim esse negócio "Oh, que menina boazinha!", porque você fica com esse compromisso de ser boazinha, do jeito que falam que você é.

Alô Bebê - Que tipo de conselhos você daria às mães?

Denise Fraga - Tenho alguns conselhos. Se você está grávida, ou acabou de ter um filho, e tem condição, coloque alguém para ajudá-la. Eu não tive enfermeira, nem quis ter, mas acho que é bom você ter uma babá ou alguém que, quando você acorde às 7 da manhã e aquele bichinho estiver com os olhos abertos e batendo pernas, não querendo ficar deitado, você possa pedir para essa pessoa que fique um pouquinho com ele para você descansar, sabe? Porque eu sinto que uma das coisas boas é você poder curtir seu filho nesse primeiro ano com toda a vontade, e nem sempre é possível, às vezes você está morrendo de sono. Então acho que é bom ter alguém por perto, porque ser mãe também é aprender - principalmente se você trabalha - a precisar dos outros.

Alô Bebê - É preciso conciliar a vida profissional e a pessoal.

Denise Fraga - Sim, você tem que contar com as pessoas, tem que aprender a fazer isso. Contar consigo mesma não é suficiente. Se não tem fruta na geladeira, isso não pode mais acontecer. Nada pode faltar. É preciso montar toda a infraestrutura. E um conselho psicológico seria essa coisa da honestidade. Nunca deixe nada sem explicação, tudo que puder explique, tudo que puder fale a verdade, porque eu acho que esse é o caminho para um planeta e para pessoas melhores, que construam relações em cima de verdades, e não de mentiras.