Depressão pós-parto, como identificar?

Tudo muda quando o teste de gravidez dá positivo. É uma mistura de sentimentos e emoções só de pensar que um “ser” tão pequeno está sendo gerado dentro do útero. Logo, um amor imensurável começa a surgir no fundo do peito. Essa espera, curtida mês a mês, chega ao ápice no momento do nascimento, quando a mulher olha para o rostinho do pequeno e o pega no colo pela primeira vez. Mas, em meio a tanta euforia, uma enorme tristeza pode começar a surgir, e o que parecia ser o momento mais feliz da vida se torna um pesadelo. Ela é tomada por um vazio, uma tristeza e até por certa repulsa do bebê. É hora de procurar ajuda!

Mães pela metade

Na visão do obstetra Dr. Alberto Guimarães é comum as mães sofrerem de depressão pós-parto (DPP). “Até porque a euforia diminui, abaixa o astral e termina a expectativa da chegada da criança. O tipo de parto também pode não ter acontecido como o planejado e isso contribui”, constata o especialista. Nos casos de depressão a criança é a maior afetada, pois há falta de afeto e de amor materno.

Foi divulgada recentemente uma pesquisa da Royal College of Midwives, do Reino Unido, que aponta 27% das mulheres com filhos de menos de um ano de idade como sendo pacientes submetidas a algum tipo de tratamento para a depressão pós-parto.

Fabiana Deziderio, mãe de Joaquim, de três anos e meio, sentiu os primeiros sintomas no fim da gravidez, mas o diagnóstico só veio no quinto mês de vida do bebê. “Eu achava estranho chorar tanto e me sentir tão fragilizada. Quem descobriu o problema foi a pediatra do meu filho. Ela me deu a notícia e então chorei mais ainda. Como assim eu era uma ‘meia mãe’?”, recorda a autora do site Mulher e Mãe. Logo que Fabiana se deu conta do problema, foi em busca de tratamento.

Identificar o problema, antes de ter consequências mais sérias, é possível desde que os sintomas sejam observados. Entre as características mais comuns da DPP estão: choro, tristeza, melancolia, sentimentos de culpa, perda de apetite, perturbação do sono, dificuldades de concentração e sentimentos de inabilidade e incompetência para cuidar de crianças.

“A depressão pós-parto é séria, caracteriza-se pela mudança de comportamento e pela perda de vontade de cuidar de si e do bebê. Algumas mães ficam bastante agressivas e, quando a depressão chega a um nível profundo, correm o risco de suicídio”, alerta Dr. Guimarães.

O começo do pesadelo

Shirley Hilgret, de 34 anos, teve uma gestação e um parto tranquilos. Tudo parecia bem até o Leo precisar se alimentar. O leite só apareceu no quarto dia, e, como o bebê não podia esperar, ela usou a mamadeira. Quando os seios ficaram cheios, Leo não conseguiu mamar. “Chamei uma consultora de amamentação que, como último recurso, me indicou a sonda.” Mesmo assim, o pequeno chorava muito, o que deixava Shirley desesperada. Ao buscar ajuda, um especialista descobriu que Leo sofria de alergia à proteína do leite da vaca (APLV).

Quando se fala em depressão a primeira coisa que vem à mente é a mãe rejeitando o bebê. Mas isso é um erro, afinal não é só a rejeição um sintoma de DPP, mas sim tudo o que sai da normalidade. Shirley foi muito organizada e controladora. Quando surgiram as dificuldades com Leo, ela notou que o problema estava fora do seu alcance, por isso, sentia-se triste e desesperada. “Como fiz terapia antes da gestação, sabia que, se meu filho melhorasse, eu também melhoraria”, conta.

Já Fabiana sofreu pelo zelo em excesso. “Não rejeitei o Joaquim, como acontece em alguns casos, mas parei de dormir com medo de que algo acontecesse a ele sem eu estar por perto. Isso também é uma distorção da realidade, um transtorno”, diz. Para isso, procurou um médico, tomou remédios e prometeu a si mesma que melhoraria o quanto antes. E isso aconteceu.

Não existe um motivo exato para o surgimento da DPP, mas os médicos apontam os hormônios como uma das causas, porque depois de dar à luz a mulher sofre com a queda brusca de progesterona. Na opinião do obstetra há outros problemas envolvidos. A depressão pós-parto pode ser a soma da cobrança da própria mãe em ser perfeita com a família que não deixa a mãe ser mãe. “A família precisa respeitar o ritmo da pessoa e jamais desautorizá-la. É preciso ter paciência e orientar, sem assumir o lugar da mãe”, indica.


Cuidados com a mãe

Nem tudo é cor-de-rosa. Com a chegada do bebê as dúvidas e os questionamentos fazem parte da vida das mamães. Cabe aos outros membros da família, além de cuidar do recém-nascido, observar o comportamento da mãe.

Dr. Alberto ressalta também a importância de se ter um pré-natal com procedimento psicoprofilático, ou seja, participando de conversas com profissionais, discussões em grupo e, principalmente, com mães experientes que já passaram por diversas situações. O próprio obstetra assumiu o compromisso de reunir, uma vez por mês, mães que acabaram de dar à luz para conversar, junto com seus maridos.

Shirley foi uma das mães que decidiu ficar mais bem informada. “Conversar com as outras mães sobre suas dificuldades me ajudou muito. A mulher sente culpa, acha que outras mães são perfeitas e felizes, por isso ela se cobra”, aponta Shirley, hoje autora do blog Macetes de Mãe.

A depressão pós-parto dos papais

A DPP não é exclusiva das mulheres. Há muitos homens que passam pelo problema sem se dar conta. Em geral, o quadro origina-se dos sentimentos de exclusão diante da dupla mãe e bebê. Ele sente-se apenas uma pessoa provedora que deve trabalhar e satisfazer as exigências. A própria vivência emocional do parto e a possibilidade de decepção quanto ao sexo do bebê, num momento em que todos parecem ocupados demais para lhe dar atenção, o deixa triste e cabisbaixo. Diante disso, muitas vezes, o pai encontra saída no ambiente externo ao lar. Daí o aumento da carga horária no trabalho ou até mesmo as somatizações com ocorrência de doenças. Só assim ele consegue chamar a atenção da família para si.