Ronnie Von - mãe de gravata, pai de avental


 

O cantor, apresentador e empresário Ronnie Von é um homem diferente. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sem preconceitos das experiências que o levaram a escrever o livro "Mãe de Gravata", sucesso editorial que se transformou em programa de televisão.

Alô Bebê - Fale-nos um pouco sobre a experiência que deu origem ao livro (e ao programa) Mãe de Gravata...

Ronnie Von - Eu me separei e fiquei com a guarda dos meus filhos, uma menina com 6 para 7 anos e um menino com 5 para 6 anos de idade. De repente, estava perdido no mundo com duas crianças pequenas, em idade pré-escolar e não sabia para quem pedir socorro. O que aconteceu inicialmente foi o susto, eu fiquei assustado. Eu achava que tinha alguma competência, depois descobri que tinha toda, mas inicialmente você acha que vai se arrebentar todo. Errei muito, aprendi com meus erros.

O que é importante passar para o leitor é a profunda estupidez de quem tem um nível de escolaridade ou de informação acima da média; normalmente, essas pessoas são as que se arrebentam mais, porque imaginam que sabem tudo e a coisa começa a pegar exatamente aí. Meu envolvimento com Piaget (filósofo e pedagogo suíço) e outros me levou a tomar uma atitude absolutamente equivocada, que foi a literatura. Parti direto para Piaget e me arrebentei, porque não é assim, não é "pode tudo" ou "não pode nada", a coisa tem que ter um equilíbrio, um bom senso, um meio-termo. Fui errando, mas ao mesmo tempo fui acertando para ter hoje uma visão absolutamente simplista do que seja pedagogia, puericultura etc., que é você resolver tudo com amor.

Com amor, com papo, com presença física o tempo inteiro. Com a carreira maluca que eu tinha. As pessoas falavam "Ah, que absurdo, você largou sua carreira no Brasil para ficar só na Europa ou nos Estados Unidos", não é isso, é que eu precisava, eu não podia mais viajar pelo Brasil o tempo inteiro, porque o olho da mãe é que educa o filho. Eu não podia viajar o tempo inteiro. Então fiquei preso aqui para poder exatamente ir buscar no colégio, almoçar, jantar com eles, e isso é fundamental. Por mais que eu tivesse maravilhosas governantas e bons motoristas e o diabo, eu tinha que estar com eles, porque senão dança mesmo.

E errando, e quebrando a cara, até a hora de acertar. Com o seu erro, você acerta de uma maneira tão grandiosa que esse erro passa despercebido depois. É uma experiência de vida muito rara, um pai virar mãe. Hoje, eu acho que a competência de um pai pode ser a mesma da mãe ou, modéstia à parte, com toda a minha sinceridade, melhor ainda. A única coisa que não posso fazer é gerar. Eu não posso parir um filho, não é uma condição fisiológica própria do homem, mas amamentar eu posso, com mamadeira. E com absoluta qualidade, pode ter certeza. Meus dois filhos mais velhos são seres humanos de primeiríssima ordem, foram criados por uma mãe de gravata, que é a história do livro.

Escrevi esse livro para homens que, como eu, tinham o mesmo problema. E lamentavelmente - ou não - fui descobrir que 72% dos meus leitores são mulheres... E o livro nasceu porque participei dessa tribo feminina, tive um grande envolvimento com elas e acabei descobrindo que elas é que têm o poder mesmo. O livro foi um sucesso editorial que acabou virando programa de televisão, onde eu mostro exatamente esse outro lado, que me parece ser lógico, do homem moderno, em que ele aceita essa dualidade que ele tem, de homem e de mulher. E essas coisas que são ditas, e eu não sei em que almanaque que escreveram que homem não pode trocar fralda, não pode cozinhar, arrumar, lavar e passar, que quem faz isso é mulher, não sei onde isso está escrito, mas a sociedade impõe esse comportamento, e nós tentamos, de certa forma, no programa de televisão, desmistificar tudo isso.

Alô Bebê - Que tipo de preconceitos você enfrentou por criar seus filhos? Numa sociedade machista como a nossa, imagino que não tenha sido nada fácil...

Ronnie Von  - "Até você, Ronnie? Jogando água fora da bacia, gostando de renda, de bordado?" Gosto sim, gosto até hoje. Minha mulher não compra uma peça de roupa, eu visto ela dos pés à cabeça, do sapato à calcinha e ao sutiã, lingerie dela quem vê sou eu. Vestia a minha menina. Quando entrei pela primeira vez numa loja de lingerie fui olhado torto, as pessoas se juntavam na porta para fazer gozação comigo, artista, cabelo grande, aquela coisa, você imagina o que eu passei.

Meu segurança sumiu, com medo de ser linchado, sei lá... Hoje em dia é muito divertido, muito engraçadinho, mas só eu sei o que passei. Os amigos se reuniam na minha casa, inevitavelmente, nessa coisa meio bucólica, meio provinciana aqui de São Paulo, homens de um lado, mulheres do outro... Muito interessante, eu sou carioca e achava isso engraçado, adoro São Paulo, mas os subsídios que eu teria que colher não eram a respeito de negócios, de política, de futebol ou da capa da Playboy. Isso tudo me interessava até certo ponto.

Então eu dizia, de fato, aquele gol eu achei que estava impedido, mas o juiz deu, tudo bem, e a capa da Playboy, essa gata é um sonho dourado, mas eu vou lhe mostrar uma toalha de mesa que você não vai acreditar (risos)... E os caras olhavam para mim, "Pô, mas que absurdo!" E isso eu conversando com os homens. Resultado: passei a frequentar apenas o círculo feminino. E eles diziam para mim, "Lá vai você com seu papo cri-cri, criança e criado!" (risos) Mas era o que me interessava. E eu colhi esses subsídios todos com as mulheres, quando descobri que elas é que são machistas mesmo; mas elas me aceitaram na tribo e daí para frente.

Minha cabeça hoje é literalmente feminina, eu vejo o mundo com olhos de mulher, e não tenho nenhum comprometimento na minha virilidade, pelo contrário, acho que fiquei uma pessoa muito mais rica em todos os sentidos. Estudei fisiologia feminina, porque tinha uma filha com problemas ginecológicos aparentemente insolúveis, fui fazer curso de paramedicina ginecológica, com ginecologistas, vi um monte de mulheres grávidas ao meu lado, que me olhavam torto à beça, até me aceitarem foi difícil. Então hoje conheço o corpo da mulher muito melhor do que conheço o meu de homem, sei alguma coisa dele porque convivo, mas corpo de mulher eu conheço bem.

Então vejo o mundo hoje com olhos absolutamente femininos, e minha vida está entregue nas mãos de mulheres. Sou empresário, você sabe; meu diretor financeiro é mulher, o administrativo também, gerente de banco é mulher, tudo mulher. Minha mulher também é mulher (risos). Minha vida está entregue nas mãos delas, elas são muito obstinadas, determinadas, o que elas querem, o objetivo, elas vão e conseguem, e está acabado. O homem é cheio de escrúpulos, dá voltas, ela não, ela tem determinação, se ela disser "vou conseguir aquilo" pode ter certeza que vai estar na sua mão, campeão, não tem jeito. O homem dá voltas, "será que eu poderia", "posso olhar não sei o quê", "quem sabe, um dia, talvez...", assim...

Alô Bebê - Quais são seus planos na carreira? A música está relegada a segundo plano, agora que você é apresentador?

Ronnie Von - É o décimo primeiro programa de televisão que eu apresento. É que as pessoas aqui no Brasil não tem a memória muito aguda. Desde a Jovem Guarda - somente naqueles anos apresentei cinco, em épocas diferentes. Agora quero consolidar minha carreira de apresentador, porque é uma coisa de amor monumental com a televisão, estou perdidamente apaixonado por isso. É uma coisa muito séria na minha vida.

Devo tudo à música, mas comecei a me insurgir muito contra essas mudanças que existiram aqui, provocadas até pelas próprias gravadoras, e você sabe a que me refiro, ao jabá oficializado, as raízes da música hoje são absolutamente comerciais, não são musicais, não tenho talento para vestir um shortinho curto e dançar na boquinha da garrafa, não sei fazer música urbana e dizer que é sertaneja, não sei fazer um samba que não é samba, isto é, estou perdido. Minha carreira musical ficou fora do Brasil e acho que o que me importa hoje aqui é televisão, mesmo. Isso é definitivo na minha vida. É um projeto de vida, não de carreira, uma coisa visceral, está dentro de mim e me faz muito bem, é prazeroso, trabalhar com aquilo que você gosta é uma coisa maravilhosa.

Você veja, hoje tive três reuniões aqui, não pude sair, almoço em casa todo dia, eu vou para a televisão, meu programa começa às cinco, à uma da tarde estou lá, todo dia, e saio dez e meia da noite, é uma coisa que me dá muito prazer.