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Separação do casal

Antes de um casal optar pela separação de fato, muitas discussões e desentendimentos acontecem. Através de gritos nervosos, portas batendo ou mesmo um silêncio profundo e incômodo fazem o ambiente de uma casa tornar-se insuportável.

Diante das brigas dos pais, as crianças, se culpam. É claro que elas não são responsáveis por seus pais se comportarem como crianças, mas elas acreditam que são. É a imaginação infantil: por sua onipotência se sentem o centro do mundo, que todo o mundo gira a seu redor. Não veem nada que não diga respeito aos seus desejos, protótipo do pensamento narcisista digno da fase mais primária do desenvolvimento psíquico.

Quando a criança sofre ou alguém que ela ama sofre, ela acredita ser o agente provocador. Pensa que os pais não estão só rompendo o acordo entre eles, mas rompendo o amor que têm por ela, fica assustada e confusa. É testemunha muda, sofre calada, abafa as emoções, sente medo e foge.

Os filhos se sentem mais culpados ainda em razão das complicações, dos encargos e responsabilidades que sua existência faz pesar sobre os pais.

Fuga num cavalo alado

Esses mesmos pais esquecem que um dia se amaram, no mínimo para a concepção de um filho. Não convém que neguem o amor que tiveram um pelo outro, afinal o êxito do casal é a descendência.

A criança assiste às cenas da discórdia, mas desconhece a razão profunda delas. Ela simplesmente vê que seus pais discutem, seus gestos bruscos, percebe os olhares, e tenta esquecer. Faz de conta que não está acontecendo nada, fugindo no cavalo alado dos seus sonhos, como nos contos de fadas. Acredita que se não fala nem escuta, os problemas deixam de existir. A cabeça roda, chora, fica doente, tenta dizer que está sozinha.

As vozes altas dos adultos quebram o encantamento inocente da infância onde, no final, deveriam viver felizes para sempre. Ao mesmo tempo que os pais brigam na frente das crianças, não querem confessar isso diante delas. Pedem que saiam. Dizem que não é de sua conta, quando, na verdade são elas as primeiras interessadas.

Contar ou não contar?

É uma bobagem não informá-las que a relação do casal está de fato, conturbada, porque as crianças são totalmente capazes de perceber a atmosfera, o clima do relacionamento, a realidade em que vivem.

Para a criança, não há nada mais interessante que observar os adultos. Ela quer aprender e é preciso que encontre respostas precisas, com palavras que promovam uma iniciação na vida sensata dos adultos. Mesmo sem querer ver, já sabe de tudo e é preciso apoiá-la, com palavras, para que essa realidade possa se tornar consciente, para que se sinta acolhida, acompanhada. Caso contrário, em vez de humanizar a realidade, ela a animaliza, ou então a idealiza, fugindo para as fantasias. A criança, a quem não enganamos, se sente bem. O ideal é que a notícia possa ser dada numa relação triangular, tanto pela mãe quanto pelo pai, assumindo cada qual suas dificuldades.

As palavras têm sempre um impacto muito grande, principalmente quando vêm ao encontro da verdade dos sentimentos. Importante é mostrar para a criança que cada um de seus pais assumiu suas responsabilidades. Na qualidade de adulto responsável, eles não veem outra solução senão o divórcio para a continuação de suas vidas em boa saúde. Se tratam de duas pessoas que não têm mais a necessidade nem o desejo de ficarem juntas. A finalidade da separação é fazer cessar o clima de sofrimento na vida em comum, afim de se tornar um alívio para todos.

Ganhando autonomia:

  • É preciso dizer-lhes a verdade, mas deixando a elas seu próprio modo de reação, acompanhando-as em sua maneira de sofrer e se expressar;

  • Quanto maior a criança, mais recursos ela encontra para lidar com a separação;

  • Divorciar-se sem avisar o filho é dramático, pois é justamente isso o que traumatiza. Se nada lhe é explicado, seu equilíbrio profundo fica distorcido;

  • Quando os filhos estão a par da situação, não vivem no sonho idealizado da criança pequena, encontram segurança para sua própria vida;

  • O lado positivo é que, diante das dificuldades, mais as pessoas se apoiam e se tornam autônomas. É fundamental que os filhos se encarreguem de suas próprias vida. Os pais existem para prepará-los para ela, essa é a responsabilidade deles;

  • Quando os pais assumem a separação de maneira responsável, eles próprios amadurecem e o filho pode, apesar das provocações, conservar sua afeição tanto pelo pai quanto pela mãe. É notável ver a que ponto alguns filhos de pais separados são avançados em seu amadurecimento social. Os pais podem então partir para suas respectivas vidas, onde todos ganham uma família satisfeita, vivendo felizes para sempre, harmonicamente separados.

    Dra. Evelyn Pryzant
    Psicóloga Clínica