Reorganização Neurofuncional

"A terapia fonoaudiológica é constituída de abordagens, métodos e linhas de tratamento que possuem semelhanças e diferenças. A Reorganização Neurofuncional tem como ponto de partida o conceito de maturação neurológica da criança ou indivíduo, para atuar a partir da "causa do problema" e não apenas com os sintomas apresentados", afirma a fonoaudióloga e professora Cláudia Maria Martini Munhoz, utilizando o método de Reorganização Neurofuncional e ministrando orientação às escolas e pais.

A abordagem terapêutica difundida no Brasil e elaborada pela fonoaudióloga Beatriz Padovan durante a década de 70, tem fundamento em estudos de neurocirurgiões, iniciados a partir da década de 40. Temple Fay, neurocirurgião do Instituto para o Desenvolvimento do Potencial Humano da Philadelphia, foi quem propôs as primeiras relações filogenético-ontogenéticas de todo o Sistema Nervoso Central.

Tais estudos também estão associados a trabalhos de outros profissionais, como Lashley, Penfield, Roberts, Spitz e Doman; que embora representassem diferentes orientações, procuravam uma abordagem central básica para resolver os problemas de linguagem.

O método implica na participação dos pais, que no início fornecem ao fonoaudiólogo informações sobre o desenvolvimento motor da criança, indicativo de seu processo de maturação neurológica, que começa já na gestação e tem grande desenvolvimento no primeiro ano de vida.

É nesse período que a criança passa por fases motoras como rolar, rastejar engatinhar e andar, estimulando desta maneira o Sistema Nervoso Central; do qual depende o amadurecimento de funções visuais e auditivas, motricidade, atenção, equilíbrio, orientação espacial e ritmo.

Possíveis "brechas" durante esta evolução (decorrentes da não passagem por alguma fase ou passagem por tempo limitado) podem gerar problemas que se manifestam a médio e até a longo prazo; detectados muitas vezes somente na fase pré-escolar ou escolar, tais como dificuldades na coordenação motora, falhas na linguagem oral e escrita, agitação e dispersão excessiva e déficit na aprendizagem, completa Cláudia.

Ao aplicar a Reorganização Neurofuncional, o fonoaudiólogo dará condições para que o paciente retome as fases motoras, inerentes a natureza humana; contudo orientando-o para que cada movimento seja executado dentro de padrões e ritmo adequados.

Por meio desta retomada serão estabelecidas novas conexões no Sistema Nervoso Central, ou reforçadas aquelas já existentes, com o objetivo de suprir as "brechas" que ocorreram dentro do processo maturacional e eliminar, desta maneira, a causa dos sintomas apresentados.

Outros exercícios mais específicos, que atenderão às peculiaridades e necessidades de cada paciente, também compõem a terapia, informa a fonoaudióloga: "o processo terapêutico é abrangente, complexo e aplicado de forma particular".

O ideal ainda é que ocorra um contato constante da fonoaudiologia com outras especialidades clínicas, como odontologia, ortopedia, psicologia, pediatria e outras, de uma forma geral, para que não se corra o risco de tratar sintomas aparentemente insignificantes de maneira menos eficaz. Tais sintomas, muitas vezes, indicam que algo não vai tão bem no desenvolvimento da criança e portanto faz-se necessária a intervenção terapêutica que, quanto mais precoce, mais efetiva será.

Pais, atenção para não "queimar" etapas

Muitas mamães e papais, na ânsia de assistirem os primeiros passos de seus bebês, ou mesmo vê-los firmes, em pé, sem qualquer apoio, podem estar desviando os pequenos de seus ciclos naturais de evolução e até mesmo favorecendo o aparecimento de deficiências em ossos e articulações. "Todo impulso motor do bebê deve acontecer e evoluir de forma espontânea e dentro do tempo de cada um", analisa Cláudia.

Os pais devem fornecer condições para que a criança passe por todas as fases motoras, sem querer antecipá-las. A criança deve estar "pronta" (amadurecida neurologicamente) para passar para a fase seguinte por conta própria: "Isso é muito importante para a criança criar referências de espaço, aperfeiçoar sua coordenação motora e ritmo e estimular centros auditivos, visuais e táteis, aspectos básicos que se completam e possuem uma interdependência no processo de maturação", diz ela.

As boas condições da gestação e um pré-natal adequado são o começo para que a mamãe "acerte mais" na evolução do seu bebê no sentido amplo, levando-se em conta que a Reorganização Neurofuncional considera dados e insights já a partir dos movimentos do bebê na barriga da mamãe.

Investigar e ficar atento a cada fase da evolução neuromotora da criança pode parecer uma missão dificíl para os pais, segundo a fonoaudióloga. No entanto, "é primordial entender que o desenvolvimento motor adequado servirá de base para o desenvolvimento da linguagem e pensar da criança, que no decorrer de seu amadurecimento obterá o equilíbrio destes 3 aspectos", esclarece ela.

Dra. Claudia Munhoz